4.1 Acompanhamento profissional e Monitoramento remoto

Módulo 4: Recursos aplicados à terapia de apneia do sono

A terapia com pressão positiva, como o CPAP, é reconhecida como tratamento padrão para casos de Apneia Obstrutiva do Sono (AOS), com impacto comprovado na redução da sonolência diurna, melhora da qualidade de vida e função cognitiva. A titulação do CPAP, tradicionalmente realizada em laboratório, tem migrado progressivamente para o ambiente domiciliar com o suporte do telemonitoramento, ampliando o acesso ao tratamento e promovendo maior adesão por parte dos pacientes.

A incorporação e o avanço da tecnologia, especialmente a conectividade em nuvem e o monitoramento remoto, transformou a abordagem da terapia pressórica. O acompanhamento nos primeiros 90 dias, período crítico de adaptação, permite intervenções rápidas, personalizadas e baseadas em dados objetivos, contribuindo para a identificação precoce de dificuldades e otimização da terapia. Além disso, o envolvimento ativo do paciente por meio de aplicativos fortalece a adesão e o entendimento sobre sua própria saúde.

Diante desse cenário, programas de adaptação estruturados, como o nosso Sleep 360º, oferecem uma jornada integrada de cuidado, unindo educação, suporte contínuo e acompanhamento especializado. Essa abordagem centrada no paciente, fundamentada nos princípios da Saúde Baseada em Valor (Value Based Healthcare), visa não apenas a eficácia clínica, mas também a sustentabilidade do sistema de saúde, ao reduzir custos com hospitalizações e aumentar a eficiência do tratamento a longo prazo.

Confira a seguir como a tecnologia e o acompanhamento personalizado estão revolucionando a adaptação à terapia com CPAP, melhorando a adesão e os resultados clínicos dos pacientes com apneia do sono.

Homem dormindo com o CPAP em processo de adaptação de CPAP

A importância do acompanhamento profissional para mais adesão à terapia da AOS

A adesão à terapia em pacientes com apneia obstrutiva do sono depende de uma abordagem clínica que vá além da indicação isolada do dispositivo. O acompanhamento profissional contínuo, especialmente durante os primeiros 90 dias, tem papel fundamental na manutenção da terapia, favorecendo o engajamento, a adaptação ao equipamento e o enfrentamento precoce de possíveis dificuldades. De forma integrada, profissionais de saúde — como fisioterapeutas, médicos do sono, psicólogos, nutricionistas, entre outros — devem atuar em equipe para definir metas terapêuticas e propor estratégias centradas no paciente, favorecendo melhores resultados e aderência da terapia de pressão positiva.

“...a integração dos saberes de profissionais de diferentes áreas/disciplinares parece ser uma escolha assertiva no contexto do sono”.(Brasil, E ; Franco, A; Frange; et al.)

Quando profissionais de diferentes áreas compartilham conhecimentos e habilidades, o tratamento dos distúrbios do sono, incluindo a AOS, torna-se mais personalizado e individualizado, além de estar mais próximo do cotidiano do paciente. Isso favorece não apenas a terapia, mas também o empoderamento do próprio paciente em relação a sua condição clínica.

Além dos benefícios clínicos, a atuação integrada melhora a eficácia e eficiência do tratamento, reduz custos com possíveis internações e amplia o acesso ao cuidado, especialmente em áreas remotas por meio do telemonitoramento. Ou seja, o acompanhamento profissional qualificado e colaborativo leva a maior engajamento do paciente, reduz a taxa de abandono da terapia e melhora os resultados globais do tratamento.

Saiba mais sobre telemonitoramento e a sua relação com a titulação domiciliar

A Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas (CPAP) é considerada o tratamento de primeira linha para pacientes com AOS. Seu uso regular contribui significativamente para o controle de sinais e sintomas como ronco, sonolência diurna e fadiga, promovendo melhora na qualidade de vida, disposição e saúde geral dos pacientes.

Tradicionalmente, a titulação do CPAP era realizada exclusivamente em laboratório, com o objetivo de avaliar a resposta clínica do paciente e definir os parâmetros ideais de pressão. No entanto, com o avanço da tecnologia e a aplicabilidade dos dispositivos automáticos, a titulação domiciliar tornou-se uma alternativa viável e eficaz. Nessa abordagem, o paciente pode utilizar o equipamento em casa por um período a depender do protocolo profissional. A partir dos dados obtidos, o profissional de saúde pode ajustar a terapia e orientar o paciente quanto à continuidade por meio de um plano de adaptação (30 ou 90 dias) ou à aquisição definitiva do equipamento.

O telemonitoramento tem se mostrado fundamental nos primeiros 90 dias de tratamento — período crítico para a consolidação da adesão. Além disso, o automonitoramento por meio de aplicativos contribui para maior engajamento do paciente, que passa a acompanhar sua própria evolução de forma ativa. De acordo com dados apresentados por Silva, S. pacientes acompanhados por esse sistema apresentaram taxa de adesão de 74,3%, com média de uso de 6 horas por noite após os três primeiros meses de terapia.

A detecção precoce de dificuldades no uso do CPAP, aliada à possibilidade de intervenções rápidas e direcionadas, é um dos principais benefícios do telemonitoramento. Essa estratégia melhora significativamente a conformidade terapêutica e tem impacto direto na redução da taxa de abandono da terapia. Além disso, sua implementação tem se mostrado como um bom custo-benefício, ao ampliar o acesso dos pacientes aos cuidados de saúde especializados.

Desde a pandemia de COVID-19, a adoção do telemonitoramento se intensificou, consolidando-se como uma ferramenta essencial na continuidade do cuidado. Embora os primeiros dispositivos com essa funcionalidade tenham surgido em 2015, foi nesse contexto que sua relevância se evidenciou. A maior adesão ao tratamento e a queda nos índices de interrupção da terapia refletem a importância dessa tecnologia diante da gravidade das complicações associadas à AOS, como o desenvolvimento de comorbidades cardiovasculares e metabólicas.

Por fim, as evidências clínicas reforçam os múltiplos benefícios do telemonitoramento: aumento da adesão ao tratamento, melhor controle de doenças crônicas, redução de internações hospitalares, prevenção de complicações graves e otimização do tempo clínico. Além disso, os dados coletados permitem análises detalhadas com gráficos, curvas de fluxo e indicadores clínicos, promovendo uma gestão mais eficaz e proativa do tratamento com geradores de fluxo, como o CPAP.

Mulher guardando o seu CPAP portátil na mala de mão

Tecnologia aliada à terapia PAP

Com o avanço das tecnologias aplicadas à medicina do sono, os sistemas de monitoramento remoto desenvolvidos pelos fabricantes de geradores de fluxo tornaram-se fundamentais para avaliar a adesão e a eficácia do tratamento desde os primeiros dias de uso da terapia PAP (Pressão Positiva nas Vias Aéreas Superiores). 

As informações geradas pelos dispositivos podem ser transmitidas por conexões sem fio, como Wi-Fi, tecnologias 2G ou 3G e Bluetooth, com armazenamento em plataformas em nuvem. Esses dados permitem à equipe multiprofissional acompanhar a evolução do paciente, realizar ajustes e orientar intervenções precoces.

O que dizem os estudos?

Segundo Duarte, R; Togeiro, S. et al, estudos demonstram que pacientes acompanhados por telemonitoramento apresentam maior taxa de adesão comparado ao acompanhamento convencional. Outro levantamento com mais de 4 milhões de usuários demonstrou que mais de 80% dos pacientes atingiram critérios adequados de adesão nos três primeiros meses de uso, e cerca de 75% mantiveram essa regularidade após um ano.

Para a Academia Americana de Medicina do Sono (AASM), o telemonitoramento aliado ao plano terapêutico permite intervenções precoces principalmente para aqueles pacientes que apresentam dificuldades na fase inicial de adaptação ao CPAP - como já mencionado neste capítulo, a fase de adaptação pode levar até 90 dias. Os sistemas conectados permitem uma atuação mais responsiva por parte dos profissionais. Dentre os principais benefícios dessa tecnologia, destacam-se:

  • Ajustes remotos e individualizados dos parâmetros;
  • Conexão com a equipe de saúde, permitindo análise contínua e segura.
  • Redução da necessidade de deslocamento e visitas presenciais, principalmente para os que sofrem de sonolência diurna excessiva, sendo até uma preocupação com a segurança do paciente ao volante;
  • Maior qualidade e continuidade do tratamento;
  • Diminuição da taxa de abandono da terapia.

Mais autonomia para o paciente

Além da interface profissional, os dispositivos PAP modernos contam com aplicativos para smartphones (compatíveis com IOS e android) voltados aos usuários/pacientes. Esses apps permitem que o paciente visualize seus próprios dados de tratamento, como tempo de uso, vazamentos e eventos respiratórios,  favorecendo o autogerenciamento e maior motivação. Veja ainda o que os fabricantes podem oferecer em suas plataformas:

  1. Pontuação conforme o uso, como forma de gamificação para incentivar o engajamento;
  2. Relatórios que auxiliam o paciente a acompanhar seu progresso;
  3. Vídeos educativos e guias, que fortalecem o conhecimento e a segurança no manuseio do equipamento.

Fabricantes renomados no mercado do sono têm investido fortemente na conectividade dos seus equipamentos. Como por exemplo, a Resmed, que disponibiliza recursos de telemonitoramento via sistema 2G/3G e gestão remota via plataformas, como AirView e o aplicativo myAir. Já a Philips Respironics e a BMC Medical oferecem soluções via conectividade 3G e Wi-Fi, além de plataformas em nuvem e aplicativos, como o Care Orchestrator e o PAP link

Os principais objetivos entre os fabricantes e os profissionais de saúde é garantir a adesão à terapia, promover o empoderamento do paciente no cuidado com sua saúde respiratória e proporcionar maior conforto e segurança ao paciente. 

Conclui-se então que, o uso da tecnologia aliada ao acompanhamento clínico representa um grande avanço na gestão da apneia do sono, integrando inovação, educação em saúde e assistência personalizada.

Relatórios de Adesão: conheça os principais indicadores

A análise dos relatórios de adesão é uma etapa essencial no acompanhamento da terapia da apneia obstrutiva do sono. Os dados obtidos por meio de sistemas de telemonitoramento fornecem informações concisas para avaliar a eficácia do tratamento, detectar falhas precoces e promover intervenções assertivas, melhorando a adesão e os desfechos clínicos. Conheça os principais indicadores na tabela abaixo:

Indicador Descrição
Tempo médio de uso por noite Idealmente ≥ 4 horas, conforme critérios da AASM.
Percentual de dias com uso ≥ 4 horas Número de dias em que o dispositivo foi usado por mais de 4 horas. O parâmetro pode determinar adesão efetiva.
Índice de Apneia Hipopneia  (IAH) Permanecer < 5 eventos/hora. Avalia a eficácia do tratamento.
Taxa de vazamento Monitora a vedação da máscara. Valores de referência de acordo com cada fabricante.
Pressão mediana, Percentil 95 e pressão máxima Pressões ajustadas durante a utilização. Pode determinar a titulação de pressões no modo automático (APAP).
Desconexões e reinicializações do equipamento Podem indicar desconforto ou dificuldades técnicas.

A interpretação integrada desses dados permite ajustes individualizados da terapia e orientações precisas, promovendo um cuidado mais eficiente e personalizado.

Efeitos adversos relacionados à terapia PAP: o que fazer?

Efeitos adversos relacionados à terapia PAP: o que fazer?

Embora a terapia com PAP seja o padrão ouro, alguns pacientes podem apresentar efeitos colaterais que, se não forem identificados e alinhados corretamente, podem comprometer a adesão ao tratamento. O acompanhamento profissional e ajustes personalizados são essenciais para minimizar desconfortos. Conheça os principais problemas e soluções:

Vazamento de ar pela máscara

1- O que provoca?

  • Pode ocorrer por posicionamento inadequado ou vedação comprometida.

2- O que fazer?

  • Avaliar o ajuste da máscara, higiene da pele e presença de oleosidade;
  • Recomendar posição lateral para dormir ou testar outro modelo de máscara, se necessário;
  • Realizar nova titulação se os vazamentos persistirem.

Ressecamento das vias aéreas superiores

1- O que provoca?

  • Provocado pelo fluxo contínuo de ar, principalmente em quem usa máscara nasal e dorme com a boca aberta.

2- O que fazer?

  • Utilizar umidificador aquecido para hidratação das vias aéreas;
  • Considerar o uso de queixeira para manter a boca fechada;
  • Se persistir, avaliar o uso de máscara oronasal.

Congestão nasal

1- O que provoca?

  • Sintoma comum que pode surgir com o uso contínuo do ar pressurizado.

2- O que fazer?

  • O umidificador aquecido pode aliviar esse incômodo;
  • Uso de solução salina nasal também pode ser indicado.

Lesões na pele 

1- O que provoca?

  • Ocasionadas por pressão excessiva ou material incompatível com a pele.

2- O que fazer?

  • Verificar o tamanho e ajuste correto da máscara;
  • Alternar modelos ou regiões de apoio da máscara;
  • Proteger a área afetada e suspender o uso momentaneamente, se necessário.

Sensação de sufocamento ao iniciar a terapia ou durante a noite

1- O que provoca?

  • Comum em novos usuários ou em quem acorda durante o sono.

2- O que fazer?

  • Ajustar a pressão inicial para níveis mais confortáveis;
  • Usar a função rampa para facilitar a adaptação no início do sono;
  • Avaliar possíveis vazamentos ou insuficiência de pressão.

Aerofagia (ingestão de ar pelo trato gastrointestinal)

1- O que provoca? 

  • Pode causar desconforto abdominal, gases e refluxo.

 2- O que fazer?

  • Trocar máscara oronasal por nasal (se possível);
  • Investigar distúrbios digestivos associados;
  • Ajustar o horário da última refeição;
  • Reduzir a pressão terapêutica com cuidado para não comprometer a eficácia.

Conclusão:

A integração entre tecnologia, acompanhamento clínico e atuação multiprofissional vem transformando o cuidado com a apneia obstrutiva do sono, tornando-o mais acessível, eficiente e centrado no paciente. 

O telemonitoramento se consolidou como uma ferramenta estratégica para apoiar a adesão à terapia com pressão positiva, permitindo intervenções precoces e personalizadas desde os primeiros dias de uso. 

A análise contínua dos dados, somada à educação do paciente e ao suporte especializado, favorece a adaptação ao tratamento, reduz a taxa de abandono e melhora os resultados clínicos ao longo do tempo. Essa abordagem representa um avanço significativo na gestão da apneia do sono, promovendo não apenas eficácia terapêutica, mas também sustentabilidade e qualidade no cuidado em saúde.

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4.2 Sleep 360°: Programa de Adaptação do VitalAire

Saiba como garantimos mais adesão à Terapia PAP com tecnologia e qualidade.

Referências

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Duarte, R.; Togeiro, S.; et al. Consenso em Distúrbios Respiratórios do Sono da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia | 2022| Disponível aqui :https://www.scielo.br/j/jbpneu/a/PdHyqJ94dYK85CHvcBHKDnb/?format=pdf&la…
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