Módulo 1: Entenda tudo sobre a Apneia do Sono
Conheça a importância do sono e o impacto da AOS para a saúde
Antes de entender o que é a Apneia do Sono e como ela afeta o cotidiano dos indivíduos acometidos, é de suma importância compreender como funciona o processo fisiológico do sono e sua arquitetura.
O sono é um processo neurofisiológico essencial à homeostase corporal, sendo regulado por mecanismos circadianos integrados no sistema nervoso central. Ele é composto por ciclos alternantes entre o sono Não-REM (dividido nos estágios N1, N2 e N3) e o sono REM (Rapid Eye Movement). A alternância coordenada desses estágios é imprescindível para a consolidação da memória, regulação metabólica, manutenção imunológica e equilíbrio neuroendócrino.
Sendo assim, alterações em sua arquitetura, fragmentações recorrentes ou interrupções de seus estágios fisiológicos acarretam prejuízos significativos à função restauradora do sono. Essas alterações caracterizam os distúrbios do sono, um grupo heterogêneo de condições clínicas determinadas pela Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono (ICSD-3), abrangendo desde a insônia e distúrbios do ritmo circadiano até parassonias e, também, os distúrbios respiratórios.
Dentre os distúrbios citados acima, destaca-se a Apneia Obstrutiva do Sono (AOS), uma condição de elevada prevalência na população adulta e pediátrica, caracterizada por obstruções recorrentes das vias aéreas superiores durante o sono, resultando em hipoxemia intermitente, despertares noturnos e sintomas como ronco, sonolência diurna, e entre outros.
Compreender a fisiopatologia do sono e dos distúrbios respiratórios associados é fundamental para a prática clínica, especialmente considerando os impactos multissistêmicos da AOS. A doença pode ser associada a desfechos adversos, como hipertensão arterial sistêmica, arritmias, insuficiência cardíaca, diabetes tipo 2 e comprometimento neurocognitivo. O diagnóstico precoce e a abordagem terapêutica adequada — incluindo intervenções como Pressão Positiva nas Vias Aéreas (PAP) — são cruciais para mitigar as consequências clínicas e melhorar a qualidade de vida dos indivíduos afetados. Leia o texto na íntegra e saiba mais!
O sono: conheça em detalhes a importância para manutenção da saúde
O sono é um estado fisiológico cíclico altamente regulado, que se repete várias vezes ao longo da noite, caracterizado por 4 estágios fundamentais no ser humano. Conhecidos como REM e Não-REM (N1, N2 e N3), esses estágios se distinguem por padrões específicos no Eletroencefalograma (EEG), atividade muscular, movimentos oculares e variabilidade cardiorrespiratória.
Sono Não-REM
Responsável por aproximadamente 75% do tempo total de sono, o estágio Não-REM é composto por três fases progressivas:
- Estágio 1 (N1): transição entre a vigília e o sono, envolvendo um relaxamento inicial, com sono considerado superficial e leve, onde as ondas cerebrais se tornam mais lentas e irregulares, diminuindo assim a atividade cerebral.
- Estágio 2 (N2): o organismo está se preparando para entrar no sono profundo. A atividade cerebral diminui ainda mais e as ondas se tornam mais regulares. Ocorrem movimentos oculares lentos e surgem os complexos K, padrões característicos de atividade cerebral, relacionados à consolidação da memória.
- Estágio 3 (N3): as ondas cerebrais se tornam ainda mais lentas e de maior amplitude. É durante o sono profundo que ocorre a regeneração muscular, a liberação de hormônios importantes para o crescimento e a reparação do tecido, bem como o fortalecimento do sistema imunológico.
Sono REM
O sono REM é marcado por intensa atividade cortical, aumento da atividade autonômica (cardíaca e respiratória), e atonia muscular — uma paralisia temporária dos músculos esqueléticos que impede a atuação física dos sonhos. Nessa fase ocorrem os sonhos mais vívidos e emocionalmente complexos. O sono REM está fortemente relacionado ao processamento emocional e à consolidação de memórias cognitivas. Sua duração aumenta progressivamente nos ciclos subsequentes ao longo da noite.
Cada ciclo completo de sono (Não-REM + REM) dura entre 90 a 120 minutos, repetindo-se de 4 a 6 vezes por noite. A integridade e a continuidade desses ciclos são fundamentais para garantir um sono verdadeiramente reparador. Alterações na arquitetura do sono podem comprometer sua qualidade, levando a distúrbios como fadiga persistente, déficit de atenção, sonolência diurna excessiva e desregulação imunológica e metabólica.
Melatonina: qual a sua relação com o Sono?
A melatonina, conhecida como o hormônio do sono, é um neurohormônio secretado pela glândula pineal no cérebro sendo responsável por regular o ritmo circadiano e o ciclo de sono-vigília. Sua secreção acontece quando a entrada de luz pela retina diminui, ou seja, em períodos noturnos a glândula pineal acelera a sua produção e liberação. Em outras palavras, a melatonina “comunica” o cérebro que é hora de dormir.
Vamos entender mais sobre os distúrbios do sono?
Os distúrbios do sono abrangem uma ampla gama de fenômenos, como insônia, sonolência excessiva diurna (narcolepsia), apneia do sono, síndrome das pernas inquietas, pesadelos, terrores noturnos, sonambulismo, bruxismo, enurese noturna (incontinência urinária), transtorno alimentar noturno, entre outros.
Podem ser divididos em 7 categorias que, por sua vez, estão suscetíveis a uma divisão ainda mais ampla para distúrbios respiratórios do sono e distúrbios comportamentais do sono. Conheça as categorias:
- Insônia: é a dificuldade em adormecer ou manter o sono, despertar de manhã muito cedo ou ter sono não restaurador com consequências diurnas associadas, podendo ser de caráter agudo ou crônico.
- Distúrbios respiratórios: consiste na respiração anormal durante o sono como na Apneia Obstrutiva do Sono (AOS), apneia de origem central, síndrome da hipoventilação da obesidade, hipoventilação de origem central, entre outros.
- Distúrbios de hipersonolência de origem central: é caracterizada por uma sonolência diurna importante, como narcolepsia, hipersonolência de causa idiopática, Síndrome de Kleine Levin, hipersonolência por uso de medicamentos ou substâncias, hipersonolência por doenças psiquiátricas, entre outras.
- Distúrbios do ritmo circadiano (vigília-sono): são perturbações recorrentes do sono em função de alterações do sistema circadiano, também conhecido como relógio biológico ou desalinhamento entre o ambiente e o ciclo vigília-sono do indivíduo. As mais conhecidas são: atraso ou avanço de fase do sono, trabalhador noturno, jet lag - um distúrbio temporário do sono decorrente de assincronia do relógio biológico com um novo fuso horário -, entre outras.
- Parassonias: são caracterizadas por sintomas comportamentais e/ou motores que ocorrem durante o sono. Podem estar relacionados ao sono REM (paralisia do sono, transtorno comportamental do sono REM, pesadelos, promulgação dos sonhos) como ao sono Não-REM (sonambulismo, terror noturno, despertares confusionais, distúrbio do sono associado a comportamentos sexuais anormais e transtornos do sono relacionado à alimentação).
- Distúrbios do movimento: são movimentos simples e estereotipados que perturbam o sono e acabam por interferir na qualidade do mesmo. Os mais conhecidos são o bruxismo, síndrome das pernas inquietas, movimentos periódicos de membros inferiores, entre outros.
- Na sétima categoria estão elencados outros distúrbios do sono que não se enquadram na Classificação Internacional de Distúrbios do Sono, 3ª Edição.
A Apneia do Sono: distúrbio comum e presente no cotidiano
A Apneia do Sono é um dos distúrbios mais comuns e presentes no cotidiano das pessoas, muitas vezes de forma silenciosa e sem diagnóstico. Essa falta de reconhecimento leva a um significativo comprometimento da qualidade do sono e da saúde geral do indivíduo. A condição é caracterizada por episódios obstrutivos recorrentes de colapso parcial ou total das vias aéreas superiores enquanto a pessoa dorme. Isso resulta em uma redução (conhecida como hipopneia) ou na completa ausência (chamada apneia) de fluxo de ar por pelo menos 10 segundos. Esses eventos podem estar associados à excitação cortical, que é uma vigília inconsciente, ou a uma queda na saturação de oxigênio no sangue.
Os pacientes portadores de apneia do sono, frequentemente, queixam-se de sonolência diurna excessiva, sensação de sono não reparador, ronco alto e apneia testemunhada, engasgos noturnos, alterações de humor como irritabilidade, ansiedade, perda da libido, déficits de memória e concentração, sudorese noturna, e noctúria (idas ao banheiro durante a noite).
Vale destacar que, existem alguns fatores de riscos comuns que também predispõem o indivíduo à apneia do sono, como obesidade, alterações craniofaciais, bem como circunferência do pescoço aumentada, sexo masculino e síndromes genéticas, estilo de vida, entre outros.
Além disso, se não tratada, a apneia do sono pode desencadear e/ou provocar o agravamento de doenças cardiovasculares, metabólicas e neurológicas, como: hipertensão arterial, arritmia cardíaca, Acidente Vascular Encefálico (AVE), infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca, Diabetes tipo II, Doença de Alzheimer, entre outros.
De acordo com Drager,L.; et al a prevalência da Apneia Obstrutiva do Sono (AOS) na população geral é variável, dependendo da idade da amostra, sexo, país, metodologia aplicada e critério empregado para o diagnóstico. Estima-se que nos Estados Unidos, cerca de 4% dos homens e 2% das mulheres adultas têm apneia do sono sintomática.
Embora acometa muitos adultos, as crianças também podem apresentar quadro de AOS, sendo acometidas por meio sinais e sintomas que se iniciam com a presença de ronco primário (situação benigna de ronco sem alterações fisiológicas e complicações associadas), seguida de resistência aumentada das vias aéreas e hipoventilação obstrutiva, evoluindo assim para apneia obstrutiva do sono.
Conheça mais sobre a classificação e os tipos de Apneia do Sono
A apneia do sono pode ser classificada em 3 tipos principais, de acordo com o mecanismo de interrupção da respiração durante o sono, como:
- Apneia Central do Sono (ACS): caracterizada pela cessação do fluxo respiratório durante 10 segundos ou mais, com ausência do comando neurológico central e dos movimentos tóraco-abdominais;
- Apneia Obstrutiva do Sono (AOS): cessação do fluxo respiratório durante 10 segundos devido a presença de fatores anatômicos e/ou mecânicos que geram obstruções parciais ou totais das vias aéreas, com movimentos tóraco-abdominais preservados;
- Mista: ocorre uma combinação entre ACS e AOS, sendo o evento inicial de origem central seguido de um evento obstrutivo.
Segundo a Academia Americana de Medicina do Sono (AASM), o diagnóstico da Apneia do Sono é determinado com base em sua gravidade e de acordo com o Índice de Apneia e Hipopneia (IAH). Além disso, a avaliação clínica e física realizada pela equipe é fundamental para aprimorar ainda mais a hipótese diagnóstica e outros fatores, como o índice de oxigenação no sangue, que serão abordados no próximo módulo. Veja a seguir, os parâmetros de referência:
| Classificação de Gravidade AOS | Parâmetros |
|---|---|
| Normal | < 5 eventos/hora |
| Leve | de 5,1 a 14,9 eventos/hora |
| Moderada | de 14,9 a 29,9 eventos/hora |
| Grave | > 30 eventos/hora |
Agora que você já entendeu mais sobre a AOS, confira o infográfico com ilustrações e informações sobre a relação com o sono
Conclusão
A compreensão da arquitetura do sono e dos mecanismos fisiopatológicos que envolvem a AOS é essencial para reconhecer o impacto sistêmico desse distúrbio na saúde global do indivíduo.
Ao longo deste módulo, discutimos os estágios do sono, o papel da melatonina na regulação circadiana e os principais distúrbios relacionados, com ênfase na AOS - uma condição prevalente, subdiagnosticada e associada a comorbidades cardiovasculares, metabólicas e neurocognitivas. A identificação dos sintomas clínicos, fatores de risco e tipos de apneia (obstrutiva, central e mista) é o primeiro passo para a abordagem adequada da doença.
No próximo módulo, exploraremos como é realizado o diagnóstico da apneia do sono, com foco nos critérios clínicos, exames de polissonografia e parâmetros como o IAH, eficiência do sono, latência para o início do sono e muito mais!
Parabéns!! Você finalizou o módulo 1!!
Continue na jornada e siga para o próximo módulo.
Módulo 2 - Diagnóstico do Sono: avaliação clínica e exames complementares
Saiba em detalhes como identificar a Apneia do Sono
Drager, L. F., Ladeira, R. T., Brandão-Neto, R. A., Lorenzi-Filho, G., & Benseñor, I. M. Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono e sua Relação com a Hipertensão Arterial Sistêmica: Evidências Atuais. Arquivos Brasileiros De Cardiologia, 78(5), 531–536. | 2022| Disponível em https://www.scielo.br/j/abc/a/kRgPsth4rWwn7hhqF6P6KFL/?lang=pt
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